Evolução da cirurgia: dos cirurgiões barbeiros ao robô

Antigamente, a cirurgia era considerada o último recurso aplicável a doentes para os quais não havia mais remédios que restabelecessem a normalidade. Durante séculos, esta modalidade de tratamento limitava-se à tentativa de salvar feridos de guerras e raríssimas operações eram bem sucedidas, sendo praticadas como magia ou por imperiosa necessidade por cirurgiões barbeiros. A retirada de cálculos da bexiga foi uma das primeiras operações realizadas, com 50% de mortalidade. Uma das primeiras cirurgias abdominais bem sucedidas buscou extrair um tumor de ovário de uma mulher que praticamente implorou para ser operada devido ao intenso sofrimento provocado pela enfermidade. Além desses casos anedóticos, adentrar o abdome, o tórax ou o cérebro de um paciente era proibido. Com a evolução das técnicas cirúrgicas e dos conhecimentos sobre anatomia, fisiologia, bioquímica, imunologia, bacteriologia e metabolismo, porém, a cirurgia assumiu o protagonismo no tratamento de diversas doenças.

Para que isso acontecesse, a descoberta e o desenvolvimento da anestesia foram verdadeiros divisores de águas. Em 1846, o dentista William Thomas Green Morton e o cirurgião John Collins Warren aplicaram os primeiros anestésicos com éter. Em 1847, o obstetra James Young Simpson usou clorofórmio para alívio da dor do parto vaginal, o que suscitou diversos debates médicos e religiosos, já que a dor era, até então, considerada um castigo divino.  A partir da evolução das técnicas anestésicas e dos métodos de antissepsia, que tanto reduziram as infecções e a mortalidade pós-operatória, doenças consideradas “mortais”, como apendicite, colecistite, obstruções intestinais e tumores, passaram a ser resolvidas cirurgicamente através de grandes incisões abdominais ou torácicas, mantendo vivos os doentes, porém às custas de sequelas relacionadas aos cortes.

Por volta dos anos 1980, a videolaparoscopia surge e se torna rotina para tratamento das diversas patologias. No entanto, a dificuldade de manipulação dos instrumentos cirúrgicos limitou sua difusão a todas as cirurgias e cirurgiões, já que a técnica laparoscópica exige muita dedicação e treinamento. Com grandes curvas de aprendizado, procedimentos como a prostatectomia radical (retirada da próstata) são complexos, apesar de minimamente invasivos. O século XXI, por sua vez, testemunhou uma revolução na cirurgia, talvez a maior após o advento da anestesia e antissepsia: o robô cirurgião. A máquina não opera sozinha, reproduz todos os movimentos do médico de maneira mais fiel do que na laparoscopia. Isso aumentou a destreza, as possibilidades de movimentos e a precisão da cirurgia, mantendo o caráter minimamente invasivo.

Nos EUA, cerca de 90% das cirurgias de próstata são robóticas. No Brasil, essa tecnologia chegou em 2008 e na Bahia, em 2019. Apenas no ano passado foram realizadas no país cerca de oito mil cirurgias de próstata robóticas, número que deve crescer ainda mais nos próximos anos, principalmente quando a tecnologia for disponibilizada no Sistema Único de Saúde (SUS). Os avanços ocorridos em menos de 200 anos permitem que indivíduos submetidos a procedimentos cirúrgicos retomem suas vidas com sequelas menores. Dificilmente alguém que viva muito passará a sua existência sem ser submetido a alguma intervenção e, quando isso acontecer, é bem provável que retorne ao convívio da sua família sem maiores intercorrências.

* O urologista e cirurgião robótico André Costa Matos (CRM-BA 23343), doutor em uro-oncologia, diretor da Sociedade Brasileira de Urologia – seccional Bahia (SBU-BA) e membro-fundador do Robótica Bahia – Assistência Multidisciplinar em Cirurgia, trabalha no Hospital Aristides Maltez e em Hospitais da Rede D’or em Salvador

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